Mapeando o manifesto: comunidade

Uma entrevista com ondamarela

De que forma a noção de COMUNIDADE orienta o vosso trabalho e a vossa prática? 

A matéria de que é feito o sentimento de pertença a uma comunidade é extremamente complexa. Uma comunidade pode assentar em laços geográficos, linguísticos, históricos, emocionais, políticos, geracionais, entre milhares de outras dimensões. Pode firmar-se em laços imperturbáveis e duradouros ou outros efémeros e voláteis. Pode envolver diferentes espécies num ecossistema, ou agentes apartados entre si. Pode apresentar-se de forma consciente ou involuntária. O simbólico e o real desempenham papéis com igual importância no desenho destes laços, o que torna a experiência de tentar definir com exactidão “comunidade”, uma tarefa fugidia e difícil.

A comunidade como “o sentimento de nós”, centra o significante numa experiência humana e propõe uma visão simultaneamente poética e aglutinadora dos vários tipos de laços que compõe uma comunidade. Essa afirmação de Ferdinand Tonnies chegou-nos por via do professor Manuel Jacinto Sarmento num dos maravilhosos encontros “Artes e Comunidades” organizados pelo então Serviço Educativo do Centro Cultural Vila Flor. É por essa definição que na ondamarela regemos a nossa abordagem ao trabalho com comunidades, um trabalho eminentemente colaborativo, de co-criação artística.

A partir desta ideia de “nós”, a abertura, a disponibilidade, a escuta, passam a fazer parte integrante da prática de criação artística, uma vez que o trabalho fica mais horizontal e acomoda com outra liberdade o debate, o confronto de ideias, o compromisso.

Houve algo que tenha tornado esta noção central ao vosso trabalho? 

A dimensão da educação e da criação artística colaborativa do Ricardo e a gestão cultural e o pensamento estratégico sobre cidades da Ana, confluiram num conjunto de princípios e preocupações comuns. O percurso profissional que os dois fizemos, apesar de bastante diferente, levou-nos ambos à Guimarães2012, Capital Europeia da Cultura, onde desenvolvemos projectos que se tocaram. Envolvemo-nos de forma profunda e ao longo de muito tempo no pensamento acerca do potencial transformador da cultura e das artes nos lugares e nas comunidades. O que era posto em prática ali, mas também o que falhava, o que poderia ter sido, levaram-nos a profundas reflexões acerca do modo de conceber, organizar e levar a cabo projectos artísticos de envolvimento efectivo, acessíveis e democráticos. Que práticas, que princípios, que processos adoptar nesse sentido, passaram a ser as questões que nos moviam. Foi também um trabalho de nos libertarmos de preconceitos, de desempoeirarmos a cabeça e abordarmos estes assuntos de uma forma mais natural. Esse foi um momento charneira do nosso percurso e no nosso trabalho. Formou-se em nós, nesse ano, uma visão de inclusão, de acessibilidade, de envolvimento e participação e dos seus resultados claros, que nos tocou particularmente aos dois e que nos levou por fim à criação da ondamarela.

Hoje desenvolvemos a nossa acção em torno destes exactos princípios gerais: independentemente da forma que assume o nosso trabalho (criação, mediação, programação, formação) a acessibilidade, a diversidade, a liberdade e a democracia são sempre as bases a partir das quais construímos.

Quais são as referências que escolhem para falar do vosso trabalho? Falem-nos de outros projectos, referências culturais, exemplos concretos de casos que vos inspiram a fazer melhor. 

Esta é uma questão mais difícil de responder do que parece. Acontecerá com muitos artistas e com muitas estruturas, mas nós, como vivemos a ondamarela num registo muito familiar, há uma intensidade muito grande no que fazemos, em que tudo o que tem impacto no privado tem impacto no nosso trabalho, tudo o que nos emociona no trabalho é transportado para casa. Damos connosco a falar de projectos como se fossem pessoas, gestos e momentos como se fossem propostas culturais. Há por isso muitas coisas que nos inspiram. Por um lado, o pensamento e a poesia de Tolentino de Mendonça têm sido muito fortes para nós, no sentido da clareza, da reflexão e do cuidado. Muito do que reflecte tem tudo a ver com o nosso quotidiano. Mas encontramos muitas referências em pessoas com um olhar, um pensamento ou uma acção mais activista, do José Afonso ao Emicida ou ao nosso querido Paulo Pimenta, por exemplo.
Por outro lado, quando um lugar, uma comunidade, se organiza activamente para desenvolver processos transformadores ao longo de muito tempo, com impactos decisivos na vida de gerações, gostamos muito de estudar esses fenómenos, de perceber toda aquela beleza. É o caso de Cem Soldos, por exemplo, em que uma comunidade exala uma noção de partilha, de bem-comum, de sentido de dever; É uma referência para nós, aquele estado de espírito.

E por último, há projectos que nos influenciam muito, pela abordagem, pelo conceito, pela acção, como as Comédias do Minho, o Tremor, o 23 Milhas, o Mapas/Festival a Porta, o Manicómio, a Strokestra do Tim Steiner, a Acesso Cultura.

Sobre a ondamarela

A ondamarela encontra nas pessoas e nos lugares a inspiração para o desenvolvimento de projetos artísticos, sociais e educativos.

Acreditamos que a criação de novas abordagens aos lugares e à sua cultura, assim como a promoção da participação efectiva das populações na actividade artística, são a chave da produção e disseminação de conhecimento e reflexão, essenciais à democracia.

Com o nosso trabalho pretendemos desenvolver uma acção artística e cultural aberta à participação activa de todos, independentemente da sua bagagem social, artística ou académica. 

Trabalhamos em comunidades muito diversas, com muitas soluções diferentes: programação, performance, objectos de mediação, exposição/instalação, pensamento/reflexão.

NOTA: No seguimento desta entrevista, no dia 15 de Abril de 2021, organizámos um debate com a ondamarela, o António Pedro Lopes e a Joana Fernandes. Graças á colaboração do Coffeepaste, o podcast está disponível aqui.