Mapeando o manifesto: “O fémur quebrado”

Uma entrevista com Mundo em Reboliço | Filipa Francisco
Foto: Jorge Gonçalves, do projeto “Rexistir 2006”, apresentação da peça “Nus Meios” no Teatro Camões, Lisboa

De que forma a noção de tempo e colaboraçāo orienta o teu trabalho e a tua prática? 

Ando com este texto há muito tempo. A noção de tempo tem sido fundamental nos projetos com os vários grupos. Tudo começou com um projeto, Rexistir que de um ano, passou a ser sete anos. Dizem que sete é uma espécie de número mágico, que uma célula se regenera em 7 anos. Há pouco tempo a osteopata mandou-me voltar ao consultório após 7 dias. Nunca fui confirmar cientificamente estes dados, no entanto o número sete ficou como alvo a apontar, um projeto nāo poderá demorar menos de 7 meses, de 7 anos. Porque a confiança demora a entrar, porque o conforto demora a instalar-se , porque o medo demora a desaparecer, porque tudo isto é importante para colaborar, para fazer um trabalho de co-criaçāo, para enlaçar vozes, para conhecer lugares e pessoas, para escutar.

José Tolentino Mendonça diz em “O que é amar um país”:

“Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual considerava ser o primeiro sinal de civilização. A expectativa geral era que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está condenado à morte, pois fica totalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa nāo foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança até que recuperasse. A raiz da civilização é portanto a comunidade. Foi na comunidade que a nossa história começou. Quando do “eu” fomos capazes de passar ao “nós” e lhe demos uma determinada configuração histórica, espiritual e ética. “

Para mim criar é um nós, criar nós, unir-se à volta de um objetivo comum, que pode ser a criação de um espetáculo, unir em escuta e fazer, ou seja, em colaboração. Neste trabalho com as pessoas, sāo pessoas-comunidades dentro de comunidades, que criam um/em “nós”.

Houve algo que tenha tornado esta noção central ao teu trabalho? 

A noção tempo e colaboração tornou-se central a partir do ano 2000, ano que iniciou o projeto Rexistir, no Estabelecimento Prisional de Castelo Branco, com reclusos e reclusas, com produção do Centa. Um projeto-escola de formação e criação artística, que ficou sete anos neste estabelecimento Prisional. Pela prática percebemos que precisávamos de dois ingredientes para a nossa sopa criativa (utilizo aqui a imagem da sopa , pois esta foi uma das referências discutidas com os participantes, a partir do da peça 1980 de Pina Bausch, e da cena em que um dos bailarinos come uma sopa). Para ganhar a confiança de reclusos, guardas, professores e direção do estabelecimento prisional necessitávamos de tempo. Que o projeto só se tornava real para cada uma daquelas pessoas , se o que se construísse, fosse de todos. Dar tempo ao tempo e colaborar era a nossa missão. Um exemplo, dos frutos destas duas palavras sāo o momento em que entrávamos no estabelecimento prisional e os reclusos entoavam as canções das peças, sem vergonha, nem medo. E o momento em que dois reclusos, geralmente em conflito, se organizaram para ler um ao outro (um sabia ler, outro não), a passagem do “Mercador de Veneza”: Sou um judeu. Então um judeu não possui olhos? Um judeu não possui mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afeições, paixões? Não é alimentado pelos mesmos alimentos, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e esfriado pelo mesmo verão e pelo mesmo inverno que um cristão? Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não rimos? Se nos envenenais, não morremos? “

Quais são as referências que escolhes para falar do teu trabalho? Fala-nos de outros projetos, referências culturais, exemplos concretos de casos que te inspiram a fazer melhor. 

Poderia falar de muitas pessoas, projetos, mas este texto veio trazer à memória uma série de referências bibliográficas, falo então de livros, que foram muito importantes em vários processos artísticos: “Mercador de Veneza” de William Shakespeare, no projeto Rexistir. “Cem anos de solidão” Gabriel Garcia Marquez no projeto “Nu Kre bai Na Bu Onda “ (quero ir na tua onda) com as Wonderfull Kova M. no Bairro da Cova da Moura. “Moving towardlife, five decades of transformational Dance”, de Anna Halprin, no projeto “A Viagem” com grupos folclóricos.

Nota biográfica

A Mundo em Reboliço é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada em 2011, pela coreógrafa Filipa Francisco. Uma estrutura de investigação, experimentação, formação, criação e circulação. Trabalha na área da dança e cruzamentos, com diferentes comunidades, em estreita colaboração e co-criaçāo.

Filipa Francisco é coreógrafa e performer. Fez a sua licenciatura, na Escola Superior de Dança. Em Nova Iorque estudou com bolsa da Fundaçāo Luso Americana e do Gabinete relações Internacionais, do Ministério da Cultura, na Companhia de Dança Trisha Brown, no Lee Strasberg Institut e com o dramaturgo André Lepecki. Desenvolveu durante sete anos um trabalho de formaçāo e criaçāo com reclusos do Estabelecimento Prisional de Castelo Branco (Projecto Rexistir) com produçāo do CENTA (2000-2006). Desenvolve, há 10 anos, “A Viagem” com grupos folclóricos ( produção MD e co-produçāo MR).