Mapeando o manifesto: “Qual é a semente do futuro?”

Joana

Uma entrevista com UMCOLETIVO | Cátia Terrinca
Foto: A SALTO, fotografia de Susana Chicó

De que forma a noção de futuro orienta o teu trabalho e a tua prática? 

Vivemos numa cidade em que o pensamento estratégico é alicerçado na ideia de que o passado é valioso. O passado ergue-se nos monumentos e é a eles que se chama património. Num primeiro momento, quando chegámos a Elvas, observámos o património edificado e tentámos encontrar-lhe liquidez. Como é possível trazer para o tempo presente edifícios, de caráter militar ou religioso, sobretudo, cujas funções estão ultrapassadas? Nasceu aí o futuro, como pulsão (ou semente) que nos traz o atrevimento suficiente para ir encontrando o compasso certo à cidade de Elvas, contrariando a ideia condescendente de interior, de província, de destino meramente turístico. O futuro é viver-se aqui, na possibilidade de conhecer as estações do ano pelos pássaros que cruzam os céus ou pela fruta que amadurece nas árvores. O futuro, como utopia, é aquilo que praticamos – porque é um elixir para um território negligenciado. É a necessidade de construir futuro que vai ampliando o nosso trabalho, que começou por ser de criação de espetáculos, e foi respondendo à dimensão construtiva de Elvas enquanto lugar, nomeadamente, na dimensão de programação do Festival A Salto e na vertente de desenvolvimento de novos públicos, sobretudo através da relação com a Escola Básica 1,2,3 de Vila Boim. Entre outras coisas, vamos percebendo que esta construção de futuro é alimentada também pela curiosidade – continuamos curiosos sobre o nosso próprio trabalho, encontrando relações de companheirismo e cumplicidade junto de uma comunidade que, à primeira vista, seria alheia à atividade artística contemporânea. Essa mediação, que começa nos nossos processos criativos e se estende à programação (sobretudo no que diz respeito ao A Salto) entre artistas e novos públicos tem sido vetorial no nosso percurso e começa agora a permitir-nos construir vias de reciprocidade entre territórios: se, por um lado, o nosso projeto serve para fazer chegar à cidade de Elvas, artistas emergentes das grandes cidades, com formação académica, também começa a servir o propósito de levar artistas e artesãos de Elvas a espaços nobres da dinâmica artística da capital. O futuro pode ser estarmos juntos, em comunidade efémeras cujas estranhezas se entranham, fundindo quem se achava estranho e distante. O futuro, assim o queremos nós, é a empatia. 

Houve algo que tenha tornado esta noção central ao teu trabalho? 

O futuro é uma resposta extrema à chegada a um lugar  que parece preso ao passado. O cineteatro é um belíssimo escombro, sem nome, predominantemente fechado. A centralidade da noção de futuro é síncrona com a mudança de território – da grande Lisboa, onde parece que o futuro tem um caminho, mudamos para Elvas, onde o futuro é um horizonte. Num determinado momento, encontrámos uma tabela que calculava a média de espetáculos de teatro, por ano, que chegaram a este território entre 1933 e 1974 – era inferior a 2. Esse momento, em particular, talvez tenha tornado urgente a missão: usando os meios dos que dispúnhamos, que eram a nossa consciência democrática e da constituição da república, a formação académica e uma rede afetiva de amigos-artistas, predispusemos-nos a pensar, fazendo, futuro enquanto exercício. Sem dúvida, o que torna a noção central é o caráter de urgência (e como não deixar que a urgência se transforme em ansiedade de ver a semente nascer?). A urgência é uma falácia terrível, motivo pelo qual tentamos resistir à tentação de acelerar o tempo para chegar mais rapidamente ao futuro. Esse desejo imediato e imediatista de preencher o espaço vazio, a partir de 2019, começa a transformar-se numa vontade de fazer futuro usando o gerúndio das estações do ano. Vamos abandonando a pressa e a ideia de resultados, o futuro é uma agricultura de fé que exige práticas diárias. Cada vez mais, pugnamos por processos de criação/programação/desenvolvimento de públicos que se dilatam no calendário, em residências que se interrompem por períodos de pousio, para serem depois retomadas. Entendemos novos verbos e novos versos. Às vezes, corremos para os braços do futuro apenas contemplando o sonho de que ele chegue. 

Quais são as referências que escolhes para falar do teu trabalho? Fala-nos de outros projetos, referências culturais, exemplos concretos de casos que te inspiram a fazer melhor. 

O trabalho da Colecção B e do Escrita na Paisagem inspirou-nos e, de alguma maneira, terá semeado no inconsciente a possibilidade de mudança de território.

A experiência da edição 0 do Bons Sons, em Cem Soldos, bem como do Loures Arte Pública, em Loures, também contribuiu para vivenciar a dimensão comunitária e transformadora de festivais. 

Depois, penso a própria circulação e as conversas que se vão travando com colegas que residem também no Alentejo, como Lendias d’Encantar, O Espaço do Tempo, Oficinas do Convento, Cia Bipolar e Descalças Cooperativa Cultural, são determinantes para a partilha de angústias, expectativas e construções que têm muitos alicerces comuns, nas suas vontades. 

Há, ainda, dois livros que têm alimentado a ideia de futuro: LIVENESS, de Philip Auslander e FUTURABILITY: THE AGE OF IMPOTENCE AND THE HORIZON OF POSSIBILITY, de F. Berardi. 

Sobre UMCOLETIVO

UMCOLETIVO é uma associação cultural, fundada em 2013,  que desenvolve atividades no âmbito da criação artística, tendo como eixos essenciais o teatro, a performance e a palavra – onde transversalmente se encontra uma ideia de reescrita, de tempo real e de voz. A estrutura desenvolve uma forte relação com Elvas, local onde está sediada e território de implementação da maioria das atividades. A relação com o território e com as suas características específicas – a sua condição marginal face aos grandes centros urbanos, a sua condição fronteiriça e a utilização quotidiana de duas línguas distintas: o português e o castelhano – determinam a sua programação e refletem a intenção de experimentar e esbater fronteiras em diferentes áreas artísticas, explorando a criação de objetos interdisciplinares.